Texto de moradora do Abraão é selecionado para integrar o e-book “Cenas do Confinamento/Escenas do Confinamento”

A jornalista Brígida De Poli, com delicadeza e carinho, fala sobre o confinamento.

O texto foi um dos 55 selecionados em um concurso que incluiu autores do Brasil, de países da América Latina e alguns da Europa. O tema, com escrita para teatro, foi a pandemia e o isolamento social.

Algumas dessas peças estão sendo lidas no projeto “Cenas Curtas” online, do prestigiado Teatro Galpão, de Minas Gerais.

Abaixo a íntegra o texto da Brígida Poli. Quem quiser acessar todo o conteúdo do e-book clique aqui.

 

A MULHER NA JANELA

Brígida De Poli

(Florianópolis – Brasil)

1° dia

Olha só, querido, apenas agora que cheguei à janela e vi a quadra de

esportes do condomínio me dei conta do que estava sentindo falta. O

lugar está vazio! É da algazarra das crianças que sinto falta. Elas não estão

brincando, correndo, jogando bola e gritando como sempre faziam. Lembra

quando algum vizinho reclamava na assembléia de moradores do barulho

dos pequenos ? “A gritaria perturba meu sono da tarde”, diziam eles. E nós,

mesmo sem criança em casa, intervínhamos a favor delas. “ Gosto de ouvir

a algaravia dos meninos, até o grito aguuuudo das meninas. Me dá uma

sensação de vida, de alegria, de algo que se renova”, argumentava, enquanto

me olhavam como se eu fosse uma lunática.

Sabes que eu estava acostumada a fazer o trabalho de casa e a escrever

com aquele som ambiente. Desde ontem, com o início do confinamento, as

crianças estão proibidas de brincar lá fora. Não perturbam mais a siesta dos

moradores. Agora, só ouço o tec-tec do teclado do computador enquanto

escrevo. O resto é silêncio.

2° dia

Estou vendo pela janela aquele velhinho do outro apartamento. Ele vai

carregando o lixo. Vai devagar, encurvadinho. Precisa andar bastante, pois

o depósito dos detritos é láaa no início do condomínio. Acho que ele vive

sozinho. Sabe do que lembrei, meu querido? Dos velhinhos de Barcelona.

Quando cheguei na grande cidade espanhola aprendi de cara que pedir

informações era quase uma ofensa. A resposta era sempre ríspida. Tive a

ousadia de perguntar à recepcionista do hotel se as lojas ficavam abertas

aos domingos. “Por supuesto que NO! En su país las tiendas se quedan

abiertas aos domingos?!! Nem respondi que “sí, se quedan” para não atiçar

ainda mais a ira da criatura.

Ainda não existiam os maravilhosos smartphones, onde uma breve pesquisa

nos esclarece tudo. Um dia, meio perdida, me aproximei de alguns velhinhos

sentados no banco da praça. Traumatizada, pedi informação cheia de medo.

Eles foram amáveis, solícitos em tentar entender meu portuñol. Logo percebi

que eram todos assim. Passei a fazer dos viejitos o meu oráculo. Já puxava

outros assuntos, conversávamos e ríamos. Entendi que o banco da praça

era o seu lugar de encontrar outras pessoas, de ter com quem falar, de ver

a vida acontecendo. Ah, sei que já te contei esta histórias mil vezes, né, meu

amor?

Mas assim que li que a Espanha é um dos países mais atingidos pela peste,

com isolamento social obrigatório, pensei logo nos meus amigos ancianos.

Morreram milhares, outros estão trancados em casa. Não podem mais

sentar no banco das praças, perderam seu porto anti-solidão. Meu coração

fica apertadinho de compaixão e choro por eles, até ficar com “o coração

amolecido como figo em calda”.

3° dia

Sabe, meu amor, hoje vi uma mulher indo e a outra vindo no corredor que

liga os prédios no condomínio. Parei o que estava fazendo e me amparei

no peitoril para observar melhor o que ia acontecer. Me senti como aquelas

vizinhas fofoqueiras que quase caem da janela para cuidar da vida dos

outros! Mas vi as duas se cumprimentarem de longe com um aceno de

cabeça e se afastarem ao máximo na hora de cruzarem uma pela outra. O

olhar acima das máscaras era de temor. Saíram caminhando rápido, cada

qual em direção ao seu destino.

Eu já as tinha visto várias vezes antes da peste e pareciam bem próximas.

Sempre se abraçavam, riam e conversavam no jardim, enquanto os filhos

brincavam ali por perto. Agora se evitam. Medo do contágio.

Não sei se te contei, querido, que li que um dos fatores decisivos para a

contaminação veloz e dizimadora da peste na Itália é o hábito dos abraços,

os almoços em família, as avós que cuidam dos netos. Triste imaginar que o

afeto pode trazer algum dano!

Talvez pelo meu DNA calabrês, adoro abraçar, você sabe. Mal vejo um amigo

do outro lado da rua já abro os braços. Você mesmo diz que eu pareço um

polvo ! Faz tantos dias que não ataco ninguém assim. Quanto tempo falta?

Quanto tempo falta? O que você acha? Ninguém responde.

4° dia

Bom dia, meu amor. Vi uma coisa tão engraçada na sacada do outro

apartamento hoje! Queria te contar logo. Sabe aquele homem enorme do

bloco em frente? Aquele mesmo, musculoso, com cara de ogro ? Pois eu o vi

pintando o cabelo da mulher dele! Passava o pincel delicadamente, mecha

por mecha! Enquanto eu pensava que ela devia ter tido muita persistência

para convencê-lo a fazer aquilo, já que a quarentena não permite salões de

beleza abertos… a mulher estendeu o pé e ele começou a pintar as unhas

dela! De vermelho! Fiquei hipnotizada vendo aquela cena, querido. O que

será que vai acontecer depois que tudo voltar ao normal (você crê que vai

voltar?)? Esses novos hábitos ficarão ou serão imediatamente esquecidos…

hã…sei lá, não sei… Fiquei rindo sozinha, imaginando que o vizinho, delegado

de polícia, possa se encantar com as novas atividades, trocar de profissão e

abrir um salão de estética! Hahahaha…

5° dia

Pandemia, coronavírus, Covid, quarentena, cloroquina, respirador, síndrome

respiratória, Sars, óbitos, OAS, psicopata, carreata, positivo, negativo, morte,

mortes, mais mortes… Não consegui dormir essa noite. Estas palavras

ficavam girando na minha cabeça. Pandemia, covid, mortes, mais mortes…

um círculo vicioso de palavras fazendo barulho na minha cabeça. Pandemia,

quarentena, isolamento, mortes, mais mortes… Meu amor, ajuda a silenciar

minha mente. Estou exausta. Exausta.

6° dia

Você me chamou? Ouvi uma voz e não vejo ninguém lá fora. Ai, acho que

a voz é minha! Já falava com as plantas, mas agora falo comigo mesma ?!

Olho para a tua foto na estante, meio envergonhada. Você me observa com

aquele olhar entre irônico e divertido. O que estarias pensando ?

– “Minha mulher é doida”, dirias, dando uma gargalhada !

– “Não gosto que riam de mim, você sabe”! Mas minha zanga só te faria rir

ainda mais.

Preciso te confessar uma coisa. Hoje, depois de tanto tempo, senti um certo

alívio por você não estar mais aqui. Pensei “ele não está passando por mais

este drama, por mais esta angústia. Você acreditava que era possível tornar

o mundo melhor, menos desigual. Fez a sua parte, foi à rua sem medo,

apesar das terríveis lembranças da prisão e do exílio. Quando parecia que,

enfim, havíamos alcançado nosso sonho… veio a roda viva e carregou nossas

esperanças pra lá. Você foi ficando cada vez mais calado, mais triste. E um

dia sem me avisar, seu coração parou. Agradeço aos deuses você ter sido

poupado desta peste, mas tua ausência me dá tanta saudades que chega

a doer. Fecho a janela para ninguém me ver chorar. Solidão enorme, do

tamanho daquela dos velhinhos das praças de Barcelona. Do porta-retrato

você me olha, calado, cheio de amor.

 

 

 

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