Quão humanos somos?
Como a minha primeira coluna está sendo divulgada em abril, decidi abordar uma das simbologias da Páscoa: o coelho, escolha esta que vejo, como veterinário, com alegria, por se tratar de um animal.
É difícil não traçar um paralelo entre a essência mais profunda da Páscoa e os animais. É estranho do como a humanidade necessita de datas especiais para se lembrar de como é simples viver.
Por um dia, ou por poucos minutos, conseguimos encontrar a nossa mais pura essência, nos sentimos humanos, abraçamos choramos, nos olhamos como seres bons e lembramos que nascemos para viver no amor e em harmonia, com tudo que nos cerca.
Bem, você já deve estar se perguntando: o que isto tem a ver com os animais?
Respondo que neles habita tudo o que mais queremos e buscamos. São capazes de perdoar na mesma intensidade da dor que provocamos. Se sangramos, também sangram. Se sentimos dor ou angústia, também sentem. Se perdemos nossos filhos, eles também perdem (quão profunda dor).
Enquanto buscamos a felicidade, o amor e a capacidade de perdoar em dias como estes, eles têm isto todos os dias. Vivem na pobreza, não possuem ou buscam conquistar bens materiais, nem esbanjam comidas ou dinheiro. Um humano se desfaz de seu animal velho ou doente, mas um animal não abandona seu amigo velho ou doente. Pelo contrário, se mantem perto dele e o protege.

Dizemos que somos seres racionais e inteligentes, mas quão grande é a nossa superioridade se vivemos, boa parte do tempo, tentando conquistar o que não precisamos para provar que somos humanos melhores. Nos colocamos à imagem de nosso criador. Mas se somos assim, por que falhamos? Se somos a imagem de nosso criador, então os seres que habitam o nosso ecossistema são a imagem de quem?
Essa pergunta parece perturbadora. Como médico veterinário vejo nos animais a reflexão de todas as nossas falhas. Eles têm apenas uma única vontade, a de viver. Não buscam por fortunas, exposição ou poder. Sabem exatamente do que precisam para viver e encontram a felicidade em tudo que podem ter. Não invejam, não roubam, não matam por ódio ou vingança, não julgam pela cor da pele ou pela sua origem.
Quem é mais humano, nós que precisamos de datas especiais para nos compadecermos daquilo que nos é exigido por sermos mais elevados ou eles, que julgamos inferiores por não falarem ou por não terem ambições?
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